Não nego que me sinto plenamente feliz em ver e ouvir pessoas jovens, entusiastas e amantes da filosofia, além de outras que chegam pela literatura e pela prática bruxa, conectarem-se aos nossos amados Deuses.
Assim como qualquer outro neófito, vi-me
diante de certas limitações no início do contato cultual, e uma delas foi
justamente: como montar um altar? E, ainda mais complexo: o que é um altar?
Para clarearmos essas questões, vamos
começar do começo: altar não é decoração. Nos papiros mágicos, ele aparece como
o ponto de contato entre o mundo material e as forças que queremos e ansiamos
mover, trata-se, portanto, de um lugar onde a matéria certa, disposta da
maneira certa, torna-se receptiva à presença divina.
Jâmblico afirma que pedras, ervas, animais,
aromáticos e substâncias sagradas, quando reunidos e organizados com
competência ritual, formam uma espécie de "receptáculo puro e
completo" para os deuses. É importante seguir e compreender essas ideias,
pois uma prática bem fundamentada nos conduz ao sucesso.
Aqui reuni um pequeno manual ancorado nesses
princípios.
A
superfície
O altar
em si pode ser uma mesa pequena, uma prateleira, uma tábua de madeira sobre um
suporte, qualquer coisa pois, o que importa é que seja dedicado exclusivamente
ao trabalho e que não acumule outros usos. Os papiros especificam altares de
terra crua para operações específicas, mas a tradição doméstica aceita
quaisquer superfícies firmes e limpas. Cubra-o com linho branco (o que eu mais
recomendo) ou tecido de cor correspondente à divindade que você está
trabalhando.
A
orientação
A maioria
das instruções nos papiros orienta o operador em direção ao leste,
especialmente para invocações solares e para o início de qualquer trabalho.
Para divindades ctônicas ou lunares, o norte ou o oeste aparecem em alguns
textos. Se você não tem como dedicar um ponto cardinal fixo, oriente o altar
para o leste e ajuste conforme o rito pede. Vejo grande importância a consultar
esses sentidos.
A luz
Uma
lâmpada ou vela é o elemento mais constante em toda a tradição. O PGM
especifica repetidamente uma lâmpada sem tinta vermelha, com pavio de linho
novo, alimentada com óleo de oliva puro. Em nossas práticas contemporâneas, uma
vela branca ou de cor associada à divindade em questão já cumpre essa função.
Ela serve como ponto de presença. Acenda com intenção. O PGM instrui que as
lâmpadas não devem receber mais óleo depois de cheias: quando a luz se vai, o
rito se encerra.
O incenso
O
fumigante/fulmigação é o canal sensorial mais direto e importante entre o operador e a
divindade. O PGM lista os incensos correspondentes a cada planeta: estoraque
para Cronos, malabatron para Zeus, costo para Ares, olíbano para Hélios, nardo
indiano para Afrodite, cássia para Hermes, mirra para Selene. Veja bem, a lógica
é a da sympatheia, a correspondência natural entre substâncias
terrestres e potências celestes. Escolha o incenso pelo deus que você está
chamando.
Use um
suporte de metal ou cerâmica resistente ao calor. Resinas em brasa produzem
mais fumaça; a alternativa de esquentar em placa metálica gera aroma intenso
com menos fumo, e é mais prático em ambientes fechados.
A imagem
ou representação da nossa divindade
A arte
tele-istica, descrita pelo Iâmblico e presente nos procedimentos do PGM, é exatamente
isso: a técnica de preparar uma imagem material para receber e sustentar a
presença divina. Uma estatueta, uma pedra trabalhada, uma gravura ou uma
representação em cera são todos suportes com legitimidade. O que determina a
qualidade do receptáculo é a pureza da matéria e o cuidado com que ela é
consagrada, não o preço e muito menos o tamanho.
Coloque a
imagem no centro ou no fundo do altar, em posição elevada quando possível, de modo
que a lâmpada e o incenso estejam na frente dela, não sobre ela.
As
oferendas
Água,
vinho, mel, azeite, flores, pão, frutas,, qualquer elemento que os hinos
órficos associam à divindade em questão é apropriado. Para Hélios, o PGM usa
mel e vinho sem água do mar. Para divindades ctônicas, libações de leite
aparecem com bastante frequência. Saiba que a oferenda não precisa ser absurdamente
elaborada: um copo d'água trocado diariamente com intenção vale bem mais do que
uma mesa farta preparada uma vez por semana. A disciplina é a sua amiga nesse
processo cultual.
O que não
colocar
Objetos alheios
ao trabalho: fotografias de família, itens sem função ritual, qualquer coisa
que "ficou bonita" mas não pertence à divindade em questão. Lembra: o
altar é um espaço de convergência. Cada elemento deve ter razão de estar ali.
Tem que haver fundamento!
E por
fim, antes de usar pela primeira vez
Purificação
do espaço é o passo anterior a qualquer trabalho. Nos papiros, isso é feito com
defumação de olíbano e aspersão de água, ultra simples e eficaz. defume o altar
de baixo para cima, percorra o espaço ao redor dele em sentido horário, e
declare em voz alta para que serve aquele lugar. Esse ato de nomeação é um ato
mágico.
Depois
disso, o altar existe. Feito! O que o mantém vivo é a regularidade, acender a
lâmpada/vela, fazer a oferenda, pronunciar o nome da divindade. Não precisa ser
longo. Precisa ser constante. Disciplina! Amor! Respeito!
Se amamos
a divindade e o nosso contato é guiado pela Verdadeira Vontade, haverá sucesso
em suas operações!
Maris
Tertuliano.

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