Este é um texto criado a partir de breves reflexões e práticas com este grande Deus. E acredito que posso começar dizendo que Dioniso não é uma divindade de fácil compreensão, e vou explorar melhor essa ideia ao longo deste texto.
Então, com todas as palavras eu te digo: qualquer um que tente te vender um deus do vinho e da festa está te vendendo uma caricatura tola e sem sentido real com o que o Deus representa. Otto entendeu isso; ele o chamou de o Deus que vem, o Deus que aparece e desaparece, e essa instabilidade é a coisa em si, e não apenas um relato biográfico Dele.
Vamos pensar no problema do nascimento. Sêmele, mortal, grávida de Zeus, é incinerada quando exige ver o deus em sua forma plena. O feto é resgatado das chamas e costurado na coxa de Zeus até completar a gestação. Duas vezes nascido: uma de uma mulher que morre, outra do próprio deus. E já aqui temos tudo: Dioniso carrega a morte dentro do nascimento. Ele vem marcado. Intenso e incomum, não acha?!
Os gregos sabiam que ele era super estranho entre os estranhos que já existiam ali. Os outros olímpicos têm contornos nítidos; por exemplo: Apolo é a forma, a medida, a distância, a ordenação perfeita. Dioniso é o contrário disso, e não tem nada a ver com ser "o lado sombrio" nesta forma contemporânea que as pessoas costumam fantasiar. A questão é bem mais incômoda. Ele dissolve as fronteiras que sustentam a própria noção de identidade e também de realidade (ou os filtros que usamos para compreendê-la). O devoto acaba entrando em êxtase, deixa de ser quem era, tu consegues dimensionar a bizarrice? Assim como a mênade não está "se divertindo" nos louvores, ela está completamente fora de si, enthousiasmos, o deus dentro dela. E quando Eurípides escreve as Bacantes, ele não celebra esse movimento. Ele mostra pra nós o que acontece quando uma cidade inteira tenta negar o que não consegue conter! Dioniso é o que não conseguimos conter, e ele representa tudo desta natureza!
Penteu é o homem racional (e sim, todos nós o odiamos). O rei que governa, que classifica, que prende e blá, blá, blá. E o Deus o destrói, mas não de modo em que ele não veja claramente a sua ruína. O destrói deixando que ele veja. Penteu acaba despedaçado pelas próprias mãos da mãe, que em seu transe carrega a cabeça do filho achando que é uma fera. Essa é a teologia de Dioniso em estado bruto e total: a recusa em reconhecê-lo não te poupa. Ela te entrega a ele de um jeito muito pior. Não quero deixá-los com medo do Deus, claro; desejo apenas que vocês possam ver o que eu tenho visto nesses estudos e culto prático.
Com estas ideias, vocês veem: é por isso que ele aparece sempre vindo de fora. Da Trácia, da Lídia, da Ásia, eis o Deus estrangeiro, recém-chegado, suspeito pra caramba. Só que essa estrangeiridade é meio que uma ficção conveniente. O nome dele já está nas tabuinhas micênicas em Linear B, muitos séculos antes. A real? Ele sempre esteve ali. A cultura grega só preferia tratá-lo como visitante, porque admitir que ele era de casa significava admitir aquilo que ele representa: e aqui falamos do êxtase, a perda de controle, a fronteira porosa entre o vivo e o morto, entre o humano e o animal. E convenhamos, tudo isso é demais para uma sociedade baseada no raso intelecto. Além do mais, o governo precisa de uma ferramenta de controle para tomar posse das massas.
A verdade é que o vinho é a parte menos interessante dele, embora seja a primeira coisa que todo mundo lembra. O vinho importa porque é a substância que faz exatamente o que o deus faz: te tira de você mesmo. A embriaguez não é a essência dele, é um veículo! A essência dele é a epifania. Por isso ele é o deus do teatro também (a máscara que te transforma em outro), e por isso ele tem ligação com os mortos, com o que volta.
No fim das contas, o que torna Dioniso controverso é que ele força uma pergunta que a gente prefere não fazer, ou fingir que não devemos fazer: o que sobra de você quando você para de se segurar? Os gregos não tinham uma resposta deboassa para isso. Tinham um deus.
Agora um recorte sobre estudos pessoais: Dioniso e a Casa 12.
Aqui foi preciso bastante cuidado, porque é muito fácil cairmos no vício moderno de pendurar deuses em qualquer assunto numa ideia de correspondências românticas sem sentido. Mas se a gente fica dentro da lógica helenística (e não da psicologia arquetípica que se vende por aí), a casa doze tem nome próprio: Kakos Daimon, o Mau Demônio. É o lugar dos inimigos ocultos, do confinamento, da dissolução, do que escapa da luz. E há algo perturbadoramente exato nesse contexto do que o Deus representa. A doze é a casa que cadencia o Ascendente, que o solapa por baixo, do mesmo jeito que Dioniso solapa a identidade firme de Penteu. É a casa do que está fora de si, em exílio, prisão, transe, o que se perde totalmente de vista. O devoto em êxtase, dissolvido no enthousiasmos, está num estado que a doze descreve melhor que qualquer outro setor do céu.
Só que, e isso é o ponto que deve ser deixado claro, Dioniso não é um significador da casa doze no sentido técnico. Nenhuma fonte antiga o coloca ali com rulership; trago um fragmento de análise a partir de meus estudos.
O que existe é uma afinidade fenomenológica e tematica, entre o que aquele topos guarda e o que aquele deus faz. Não podemos confundir as duas coisas, pois é exatamente o tipo de anacronismo que vale a pena recusar de saída. Não só neste assunto, mas em todos que relacionam os Deuses onde naturalmente não há correspondências.
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Hino Órfico 30
Incenso: estoraque (θυμίαμα στύρακα)
Κικλήσκω Διόνυσον ἐρίβρομον, εὐαστῆρα, πρωτόγονον, διφυῆ, τρίγονον, Βακχεῖον ἄνακτα, ἄγριον, ἄρρητον, κρύφιον, δικέρωτα, δίμορφον, κισσόβρυον, ταυρωπόν, ἀρήιον, εὔιον, ἁγνόν, ὠμάδιον, τριετῆ, βοτρυηφόρον, ἐρνεσίπεπλον. Εὐβουλεῦ, πολύβουλε, Διὸς καὶ Περσεφονείης ἀρρήτοις λέκτροισι τεκνωθείς, ἄμβροτε δαῖμον· κλῦθι, μάκαρ, φωνῆς, ἡδὺς δ' ἐπίπνευσον ἀμεμφής, εὐμενὲς ἦτορ ἔχων, σὺν ἐυζώνοισι τιθήναις.
Tradução
Invoco Dioniso, o que ribomba alto, o que solta o grito euai, primogênito, de dupla natureza, três vezes nascido, senhor báquico, selvagem, indizível, oculto, de dois chifres, de dupla forma, coberto de hera, de face de touro, belicoso, ávido pelo grito, puro, comedor de carne crua, dos festins trienais, portador de cachos de uva, vestido de ramos. Eubuleu, rico em conselhos, gerado por Zeus e por Perséfone no inefável leito, ó divindade imortal, escuta, ó bem-aventurado, a minha voz, e sopra sobre mim, doce e benévolo, tendo o coração propício, junto de tuas nutrizes de belos cintos.
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